ALIANÇA GLOBAL DE CATADORES
ALIANÇA GLOBAL DE
CATADORES
A Aliança Global de Catadores é um processo de articulação entre milhares de organizações de catadores de materiais recicláveis apoiado pela WIEGO em mais de 28 países cobrindo principalmente América Latina, Ásia e África.
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publicado por
Escrito por Ana Carolina Ogando e Sonia Dias

Região

País Brasil

Fevereiro 14, 2017


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Lideranças do MNCR na abertura da Expocatadores. Foto: Ana Carolina Ogando.

Nos dias 28 e 29 de novembro de 2016, catadoras e catadores do Brasil, América Latina e da Europa, junto com parceiros e técnicos locais e internacionais, se reuniram na 7ª Edição Expocatadores em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. O evento tem sido um importante espaço de debate e reflexão sobre os desafios relacionados à inclusão social e econômica dos trabalhadores e a gestão de resíduos sólidos. Dentre os mais diversos painéis temáticos, o tema de gênero também esteve na pauta de discussões. A partir de demanda das catadoras e lideranças do MNCR, duas Rodas de Conversa sobre gênero foram organizadas pela rede internacional WIEGO: “O Protagonismo e empoderamento das mulheres catadoras, lutas e desafios: Socializando aprendizados coletivos na temática de gênero” e “Mulheres na Política e Acesso aos Direitos: Qual o nosso papel?”.

Catadoras(es) do Brasil participam do primeiro paínel de gênero. Foto: Ana Carolina Ogando.

O primeiro painel – “O Protagonismo e empoderamento das mulheres catadoras, lutas e desafios” – foi um importante momento para refletir sobre o papel das mulheres no passado, presente e o futuro do movimento. O painel resgatou a história de catadoras protagonistas do movimento. Além disso, visou dar visibilidade às formas com que catadoras(es) no país têm trabalhado com a questão de gênero, ressaltando a sua importância e os impactos em suas vidas. Assim contou com lideranças de Minas Gerais, Brasília, Paraná, São Paulo, Bahia e Tocantins. Várias temáticas foram levantadas, inclusive a necessidade de desafiar o machismo que é inerente à nossa cultura e muitas vezes não é só expressa por homens, mas também por mulheres. Nesse sentido, as (os) participantes puderam criticamente refletir como o machismo se apresenta na criação diferenciada das crianças, na divisão das tarefas domésticas, na cobrança desigual por produtividade dentro das cooperativas sem levar em consideração as duplas e triplas jornadas das mulheres, nas formas de violência que mulheres sofrem e na falta de maior representatividade das mulheres em espaços de tomada de decisão.

Para a catadora Marilza Lima é hora das mulheres mostrarem a sua voz e do que são capazes: “… se conseguimos dirigir caminhões, de carregar fardo, puxar carrinhos na rua, somos capazes de fazer muita coisa. Não se cale. Fale certo ou errado. A sociedade tem que nos escutar e não queremos mais do que nosso direito.” A catadora Claudete do Rio retratou de forma contundente experiências de racismo e discutiu a relevância dessa pauta.

Professora Marlise Matos (UFMG) discute dados sobre igualdade de gênero. Foto: Ana Carolina Ogando.

Para Madalena Duarte, liderança do MNCR e catadora de Minas Gerais que coordenou o projeto de Gênero e Lixo/MG, as discussões de gênero abriram espaços para reconhecer como catadoras nem sempre são valorizadas. Representando as demandas de catadoras que participaram do projeto, Madalena afirmou: “Queremos oportunidades para ocupar mais lugares de liderança. No início nós não [nos] destacávamos, mas através dessa discussão de gênero começamos a ser destacadas.

Nesse mesmo sentindo, Matilde Ribeiro, liderança do MNCR e catadora de São Paulo, bem expressou, o dever é de lutar contra todas as formas de preconceito: “Lutamos pela igualdade, somos seres humanos e devemos ser respeitados como mulheres e homens. O machismo tem predominado na nossa cultura e vivemos isso na pele. Mas quando a gente quer ter igualdade, não podemos ter igualdade só no discurso. Somos contra o preconceito, mas está enraizado dentro de nós. Essa luta está ai para fortalecer todas as mulheres, independente da sua opção sexual, religião, classe, cor ou credo. A grande lição quando [se] luta pela igualdade tem que nascer de fato dentro da gente, quebrando todos os preconceitos dentro da gente.” Parte desse processo envolve pensar as relações desiguais que estruturam os mais diversos espaços de interação, inclusive as que têm sua origem no espaço privado. Edileuza, catadora de Tocantins, frisou a importância de se combater o machismo desde a casa: “Uma das ações é na nossa própria casa, é atuar de forma com igualdade.

Entendendo o tamanho do desafio posto, as (os) participantes levantaram a necessidade de colocar em prática o discurso pela igualdade dentro das cooperativas. Conforme Madalena Duarte enfatizou, “Nossa luta hoje é para que cada uma [tenha] esse papel nas bases para enfrentar a desigualdade sofrida por cada uma de nós.” E uma forma de fazer a mesma é trabalhar para que todas (os) tenham acesso à informação. Outra sugestão interessante foi discutida pela Aline Sousa, liderança de Brasília e catadora do Centcoop/DF, que trouxe à tona a questão da obrigatoriedade de uma representação paritária de gênero. Segundo Aline, se cada instância de tomada de decisão, seja no nível local, estadual, regional ou federal, implementar esse modelo de paridade, “vai ter muito mais mulheres sendo consideradas, empoderadas, vistas e reconhecidas.

Com o intuito de aprofundar a discussão sobre participação política, o segundo painel destacou a necessidade de compreender melhor como uma efetiva participação política (1) amplia o conhecimento de políticas públicas que afetam as mulheres, (2) ajuda a impactar a formulação de políticas relevantes para questões de gênero, (3) envolve diferentes formas de participação desde os espaços da cooperativa e o movimento até a política formal, e (4) passa não somente pelo ato de garantir de direitos, mas pelas próprias lutas para garanti-los. Contamos com as ricas contribuições da Professora Marlise Matos (UFMG/NEPEM), Maria do Rosário (técnica e advogada do INSEA) e Áurea Carolina (vereador eleita do PSOL em Belo Horizonte, ativista negra e feminista). Cada uma com seu distinto olhar, nos lembrou da importância de pressionar por uma democracia que leva em consideração a pluralidade de vozes e perspectivas. E esse projeto só pode ser bem sucedido se as diferenças de classe, raça e demais demarcadores identitários forem incluídos. Entre os temas discutidos no painel, destacamos: as desigualdades salariais entre homens e mulheres no Brasil, as taxas de participação política no Brasil, a presente conjuntura pós-golpe e os seus impactos sobre políticas públicas que diretamente as(os) afeterão, a necessidade de pensar a política como um bem comum construído em práticas cotidianas e não somente em espaços formais da política, o acesso à direitos e serviços públicos como saúde, moradia, creches, educação, e como o racismo atravessa a vida e experiências das(os) catadoras(es).

Palestrantes convidadas: Maria do Rosario (esq.) e Áurea Carolina (dir). Foto: Ana Carolina Ogando.

Como parte do exercício de reflexão, as(os) participantes apresentaram sugestões que poderiam fortalecer essa pauta nas cooperativas e o MNCR. A primeira foi de pensar em cursos de capacitação/formação política, de forma mais ampla. A segunda sugestão foi de organizar, conjuntamente com parceiros, cursos e/ou atividades de formação em gênero. Ligado a essa proposta, participantes também sinalizaram interesse em mais encontros como os discutidos no primeiro painel, como salientou a catadora Jeanne da Bahia que disse que “… gostaria de fazer um grande encontro de 3-4-5 dias para falar de tudo que a gente precisa.” E por final, foi sugerido que o MNCR considerasse instituir um Plano de Ação focado em ações concretas para a igualdade de gênero, incluindo formas de garantir paridade de representação das catadoras.

Os dois painéis ressaltaram os nós críticos em relação à luta pela igualdade de gênero, o combate ao racismo, os preconceitos contra pessoas LGBTQI, a necessidade de maior solidariedade entre cooperados e a falta de reconhecimento pelo trabalho feito pelas(os) catadoras(es). Houve também um amplo consenso de que a construção de uma agenda por igualdade de gênero só conseguirá avançar com o apoio de homens. Nesse sentido, o depoimento de Toninho, catador de Poços de Caldas, foi um lembrete de como a luta pela emancipação feminina significa a emancipação de todos e todas.

De forma geral, o objetivo dos painéis foi duplo. Primeiramente, buscou-se destacar as vozes, força e sabedoria das catadoras mesmo diante dos óbstaculos mencionados. E em segundo lugar, buscou-se reforçar como uma luta por igualdade de gênero também faz parte dos ideais do cooperativismo que fundou o próprio MNCR. Espaços como esse revelam que existe um desejo para coletivamente pensar e trabalhar por justiça social.

Grupo tira fotos no final do segundo painel. Foto: Cyrus Afshar.

 

Sonia Dias ressalta pontos principais do primeiro painel. Foto: Ana Carolina Ogando.

 

Catadoras fazem anotações durante as palestras. Foto: Ana Carolina Ogando.