ALIANÇA GLOBAL DE  CATADORES
ALIANÇA GLOBAL DE
CATADORES
A Aliança Global de Catadores é um processo de articulação entre milhares de organizações de catadores de materiais recicláveis apoiado pela WIEGO em mais de 28 países cobrindo principalmente América Latina, Ásia e África.
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junho 19, 2012


Indian waste pickers with Brazilian waste pickers

RIO DE JANEIRO – 18 de junho de 2012 –

A Cúpula dos Povos: área onde a energia vibrante e contagiante dos movimentos sociais apresentou-se com toda sua força. Tendas brancas espalhas ao longo de quilômetros de um parque público localizado nas imediações do centro da cidade encontraram-se recheadas de atividades políticas que denunciam uma falsa economia verde. Economia essa que resulta em poluição e que incentiva a mercantilização dos bens naturais.

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável: localizada em local distante do centro da cidade, exigia inscrição oficial dos participantes e onde se ouvia o burburinho de delegados internacionais vestindo ternos impecáveis.

Durante toda a semana, catadores do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis realizaram uma série de atividades na tenda do movimento, que faz parte da Cúpula dos Povos. Destacaram-se, na programação da tenda, uma plenária sobre o fechamento de lixões no Rio de Janeiro e no Brazil e uma palestra a respeito dos aspectos judiciais da Política Nacional de Resíduos e a manutenção de incineradores no mundo.

Na comitiva “análise dos contextos nacionais e globais dos catadores”, líderes dos catadores da Índia, Colômbia, Nicarágua, República Domenicana e  Uruguai trocaram experiências com os catadores do Brasil.

“A Política Nacional de Resíduos mudou as coisas”, afirmou Alex Cardoso, um líder do MNCR responsável pela análise da questão no âmbito nacional. “Os catadores tornaram-se mais visíveis na mídia e em toda parte, mas as grandes empresas têm tirado proveito e se fortalecido. A indústria da incineração ganhou força e agora os catadores têm lutado com mais força contra ela”.

Waste pickers discuss national and global contexts

Cardoso falou de quão assustador é o número de lixões que ainda estão espalhados pelo Brasil. Na região Nordeste do país, há 1.750 lixões, contou Alex, onde há milhares de pessoas trabalhando. “Precisa-se diagnosticar quantos catadores – sendo mulheres, muitas delas com seus filhos – nesses lixões.”

Conforme análise final, Cardoso afirma que a PNRS “poderá ser um mar de rosas, se os catadores lutarem para isto, caso contrário, será uma de tubarões.”

Silvio Ruiz, da ARB (Asociación de Recicladores de Bogotá), sediada na Colombia, forneceu um panorama da realidade dos catadores na America Latina. “Nos preocupamos com o fechamento dos lixões [sem consideração pelos trabalhadores que tiram seu sustento dali], a privatização do lixo e da reciclagem e o fato das indústrias fecharem-se para os catadores.”

Lucia Fernandez nos forneceu uma visão geral da situação dos catadores ao redor do mundo. Ela nos mostrou o boletim informativo da África, e contou como as organizações de catadores foram identificadas pela WIEGO em mais de oito países do continente. Os níveis de organização variam muito, mas o desafio permanece o mesmo: “os lixões estão sendo fechados ao redor do mundo todo e os catadores precisam se organizar para serem incluídos nos novos sistemas.”

Sushila Sabale, da Alliance of Indian Waste Pickers (Aliança de Catadoras da Índia), que começou a trabalhar como catadora aos dez anos de idade, falou que os catadores precisam se organizar urgentemente, para conquistarem avanços. A cooperativa da qual ela participa está trabalhando com a meta de Zero Waste e a inclusão dos catadores no sistema de manejo do lixo sólido. Isso incluiria a garantia, para os catadores, de cuidados na área da saúde, educação, apoio psicológico e de assitência social além de pôr fim ao trabalho infantil.

No Centro de Convenções das Nações Unidas

Essas idéias também foram levadas até o Centro de Convenções do Rio Centro, onde a delegação dos catadores discutiu sobre como alcançar a meta do Lixo Zero de um modo que seja inclusivo em termos sociais. Isso implica lutar contra a indústria da incineração e pôr um fim ao fechamento dos lixões sem levar em conta as populações que sobrevivem dele. Esse lado oficial do evento da Cúpula contou com a presença de representantes das organizações de catadores, sindicatos, advogados da área do meio ambiente, governos locais, líderes comunitários e especialistas em manejo de resíduos sólidos.

Guiomar Santos, um líder dos catadores que também faz parte do MNCR, está participando na luta contra uma incineradora no município de São Bernardo, São Paulo. Corporações algumas vezes dizem que as incineradoras são uma solução para o problema mundial do lixo – que as incineradoras criam Lixo Zero. Isso não é verdade, Santos explicou.

“A incineradora tira o material reciclável do catador”, disse ela. “Nós também estamos muito preocupados com relação à poluição que vai ser gerada em São Bernardo e nas redondezas.”

Mariel Vilella, da  GAIA, apresentou a nova publicação da GAIA, “The Road to Zero Waste” (o caminho para Lixo Zero), que inclui estudos de caso sobre experiências de lixo zero no mundo inteiro. Na sua apresentação, Vilella denunciou que o texto do Rio+20 apoia a geração de energia de resíduos como igual que a prevenção, reuso e reciclagem.

“O lixo zero envolve o estabelecimento de uma nova direção para os resíduos”, colocou Vilella. “Qualquer apoio à incineração ou o aterramento de resíduos vai prevenir a redução, o reuso e a reciclagem, e vai deslocar os catadores. A texto do Rio+20 não deve legitimar estas falsas soluções”.

Jyoti Mhapsekar, integrante da organização indiana Stree Mukti Sanghatana, também fez apontamentos sobre o sistema de Lixo Zero, que tem sido adotado na cidade de Mumbai, Índia. Lá, as catadoras, especificamente mulheres, nesse caso, têm sido treinadas para realizar compostagem e produzir biogás a partir do tratamento do lixo úmido.

“Pregar a respeito do meio ambiente não é suficiente”, segundo ela. “Temos que adotar uma prática caseira [com relação ao tratamento do lixo]”.

Alexa Kielty, representante do Departamento de Meio Ambiente de São Francisco, E.U.A., contou que, agora, exige-se dos moradores de São Francisco que façam a compostagem do lixo, com base na Portaria de Compostagem Universal (Universal Composting Ordinance). Em 2009, um sistema de três lixeiras foi introduzido – uma para lixo, uma para materiais recicláveis e uma para lixo orgânico.

“Quanto mais lixo produzirem maior será a conta do lixo” disse Alexa. “O funcionamento deve funcionar como o de um serviço”.

Silvio Ruiz afirmou que os catadores precisam priorizar o fornecimento de serviços de reciclagem a nível municipal. “Acreditamos que as empresas privadas precisam lidar com o lixo e a administração do lixo mas não precisam se envolver com a reciclagem do lixo, porque isso é o que nós fazemos para sobreviver”, defendeu Ruiz.

“A reciclagem informal teve início há 150 anos — antes mesmo da sociedade pensar sobre isso, estávamos reciclando,” disse Silvio Ruiz. “Sofremos discriminação e violenta falta de lugar, então encontramos um modo digno de sobreviver através do lixo”.

Para mais informações sobre a Aliança Global dos Catadores (Global Alliance of Waste Pickers), entre em contato com Deia de Brito: info@globalrec.org; ou +21 8346-7343. Visite: www.globalrec.org.
Para mais informações sobre Lixo Zero, entre em contato com Magdalena Donoso, GAIA: magdalena@no-burn.org; ou +21 8394-7180. Visite http://www.no-burn.org/